O que
pode um gambiarrista?
Na
vida, em tudo que podemos compreender nela, em seu constante
movimento, em suas altas e baixas, em suas larguras e superfícies,
uma coisas nos é certa - AS COISAS MAIS IMPORTANTES DA VIDA NÃO SÃO
COISAS. Com a noção de vida como uma obra inacabada, um
acontecimento entre outros acontecimentos, nada pronto, nada certo,
nada errado, tudo errante e tudo nada, onde pouco se escolhe ou
decidimos enquanto indivíduos, enquanto pessoas, enquanto multidão,
vida vibrátil,
vida-rio, vida-vento, instante e eternidade, aqui e agora - seria SIM
a vida gostosa e divertida que queremos e afirmamos.
Com
a experiência da redução de danos, na saúde pública, tivemos um
aprendizado importante que serve-nos de teoria pra além do
específico, levamo-no pra vida, que entre o IDEAL (vida que
idealizamos) e o REAL (vida vivida como realidade) temos os POSSÍVEIS
(intencionalmente no plural, são as possibilidades de existir, de
resistir - as possíveis rexistências). Entre o céu e a terra temos
a criação, seja o que isso for, temos neste espaço do "entre"
inúmeras possibilidades, podemos dizer até infinidades. É de certo
que entre o Zero e o Um, entre o Sim e o Não, entre Um e Outro há
um intervalo inúmeras possibilidades, um espaço para o exercício
da inventividade. Você tem um problema? Não, você tem uma
oportunidade para o exercício da inventividade.
A
ciência busca encontrar na vida algum elemento fixo, uma lei, uma
regra, um elemento primordial, atômico - sabemos que mesmo no estudo
dos átomos a instabilidade é a regra. Não há estabilidade na vida
que permita alguma qualificação da vida como permanente, estática,
imutável! Sendo assim, se alguém for estudar a vida e quiser
a-prender algo dela, desenhar o esboço do que quer que seja com
lápis, que tenha uma borracha bem à mão. O mapa tenderá, por sua
fluidez, a uma cartografia: um esboço PROVISÓRIO que será feito no
próprio processo de viver na vida. O homem que atravessa o rio não
é mesmo quando chega a outra margem; e nem o rio é o mesmo. A casa
que tem sua parede pintada já não é mais a mesma e nem o pintor e
nem seu morador serão mais os mesmos. O que nos valerá como
conhecimento será sempre provisório mesmo nas questões mais
humanas, nas perguntas mais simples (e por isso mais difíceis), quem
somos, de onde viemos, para onde vamos. Nossos projetos de vida,
nossos ideiais, o sentido, a direção, tudo muda, tudo será
provisório – por que então pensar “pra sempre”?
Nesta
linha de pensamento, a vida como possibilidade, a vida como
provisória, um problema ou questão que exige alguma solução
possível e sem necessidade de destruir e recomeçar tudo desde o
início, entende-se assim a vida como GAMBIARRA. A vida quando está
problemática, quando sentimos nosso ser e nossos devires presos a
limitações mortíferas, enclausuramentos que impedem a expansão da
vida, muros erguidos pelos outros e por nós mesmos – é hora de
improvisação, de enjambração, gambiarra. Como poderia ser
diferente? Como mudar a nossa vida radicalmente (desde a raiz)? Não
podemos mudar tudo como na reforma de uma casa, que depois de
demolida refazemos todos os alicerces e paredes. Não podemos
alcançar o ideal de uma casa nova da mesma forma que não
alcançaremos um vida nova – só gambiarras, só provisoriedades
que melhorem o próprio caminhar, a nosso modo de viver a vida, o
nosso aqui e agora, real e vivo.
O
Gambiarrista funciona como o psicólogo que acompanha os processos de
uma vida, uma ocupação no espaço-tempo, processos de uma morada,
de uma casa sempre em processos de construção e desconstrução.
Instalar uma rede na varanda não muda a vida de ninguém se nunca
for possível parar pra escutar o cantar dos pássaros ao amanhecer,
ou simplesmente, parar. Mudar a pia da cozinha de lugar não muda a
vida de ninguém se a comida sempre é comprada pronta. Colocar um
potenciômetro na lâmpada do quarto não cria nenhum 'clima' se
nunca nos propomos a uma noite diferente. Então, é nessas minúcias,
nesses detalhes, nessas mudanças provisórias na casa e na vida que
alguma mudança pode acontecer. E como dizia Raul Seixas, “É
preciso você tentar, talvez alguma coisa muito nova possa lhe
acontecer”.





